31/12/2009

O burro e as relíquias





Um burro, de relíquias carregado,
Supunha-se adorado.
Hinos, incensos como seus tomava
E soberbo marchava.

Alguém, que dera fé dessa tolice,
"Mestre burro (lhe disse),
Do espírito bani, por piedade,
Tão estulta vaidade.

Ao santo e não à vossa personagem
Dirige-se a homenagem;
Só às relíquias se dispensa a glória
Essa jaculatória."

De juíz, que não sabe ou não estuda
A toga se saúda.


Barão de Paranapiacaba (Trad.)

Confiando na Alegria

No tempo do Buda vivia uma velha mendiga chamada Confiando na Alegria. Ela observava os reis, príncipes e o povo em geral fazendo oferendas ao Buda e a seus discípulos, e não havia nada que quisesse mais do que poder fazer o mesmo. Saiu então pedindo esmolas, mas, no fim do dia não havia conseguido mais do que uma moedinha. Levou a moedinha ao mercado para tentar trocá-la por algum óleo, mas o vendedor lhe disse que aquilo não dava para comprar nada. Mas quando o vendedor soube que ela queria fazer uma oferenda ao Buda, cheio de pena, deu-lhe o óleo. A mendiga foi para o mosteiro e acendeu a lâmpada. Colocou-a diante do Buda e fez o seguinte pedido:
“ nada tenho a oferecer senão esta pequena lâmpada. Mas, com esta oferenda, possa eu no futuro ser abençoada com a Lâmpada da Sabedoria. Possa eu libertar todos os seres das suas trevas, purificar todos os seus obscurecimentos e levá-los à Iluminação”.
Durante a noite, o óleo de todas as lâmpadas havia acabado, mas a lâmpada da mendiga ainda queimava na alvorada, quando um discípulo chegou para recolher as lâmpadas. Ao ver aquela única lâmpada ainda brilhando, cheia de óleo e com pavio novo, pensou: “Não há razão para que essa lâmpada continue ainda queimando durante o dia” e tentou apagar a chama com os dedos, mas foi inútil. Tentou abafá-la com suas vestes, mas ela ainda ardia. O Buda, que o observava há algum tempo, disse: — Maudgalyayana: você quer apagar essa lâmpada? Não vai conseguir. Não conseguiria nem movê-la daí, que dirá apagá-la. Se jogasse nela toda a água dos oceanos, ainda assim não adiantaria. A água de todos os rios e lagos do mundo não poderia extinguir esta chama.
- Por que não? - Perguntou o discípulo de Buda.
- Porque ela foi oferecida com devoção e com pureza de coração e de mente. Essa motivação produziu um enorme benefício.
Quando o Buda terminou de falar, a mendiga se aproximou e ele profetizou que no futuro ela se tornaria um Perfeito Buda e seria conhecido como Luz da Lâmpada.

28/12/2009

O Caldeirão de Clyddno Eiddyn



Merlin, foi o mais poderoso de todos os magos e profetas da Bretanha. Sua beleza seduzira, durante a juventude, às mulheres que se lhe serviram com ardor. Era filho de uma sacerdotisa com um incubo. Do demónio do pai herdara a inteligência, da mãe o belo físico.
Já na velhice, Merlin tornara-se um grão-druída. Vivia em Avalon, cercado por sacerdotes e sacerdotisas. Fora conselheiro do poderoso Rei Arthur. No seu reino construído sobre os mistérios do mundo, assistiu a invasão dos saxões e, a chegada dos cristãos, que aos poucos, dominou toda a fé das ilhas britânicas. Ameaçado pelos princípios e tradições cristãs, o velho mago assistiu à perseguição aos costumes dos druidas, e a extinção da sua fé. Merlin aprendeu a odiar os cristãos.
Ignorando os invasores da Bretanha, Merlin continuou a praticar as mais poderosas magias. Conhecia todos os mistérios do céu e da Terra, dos homens e dos deuses, da vida e da morte. Para combater a ameaça da cristianização do seu povo, Merlin reuniu em Avalon, os maiores cavaleiros dos reinos celtas. Ao lado de tão rudes, valentes e sanguinários homens, partiu em uma busca infindável por todas as terras das ilhas britânicas, numa saga incansável aos Treze Tesouros da Bretanha, dado pelos deuses aos seus antepassados, e que se encontravam dispersos. Ao reunir os treze objectos sagrados, Merlin tornar-se-ia o mais poderoso de todos os magos, invencível, capaz de derrotar todos os invasores. Ao devolver os objectos aos deuses, eles voltariam com vigor às ilhas e ao seu povo.
Doze dos tesouros foram encontrados e reunidos. Faltava o décimo terceiro, o caldeirão de Clyddno Eiddyn. O poderoso caldeirão não poderia ser encontrado por um cavaleiro, e sim por uma virgem. Para cumprir a missão, Merlin lançou mão da mais bela das suas sacerdotisas, Nimue, por quem nutria uma grande paixão.
Diante do caldeirão, Merlin confidenciou à amada, que de dentro dele viria a porção da vida eterna. Fascinada pela promessa, Nimue aprisionou Merlin em um carvalho, roubando-lhe tão precioso objecto. A bela amante do mago desapareceu, levando o caldeirão. Preparou nele todas as porções mágicas que aprendera com o mestre. Na ilusão de que alcançaria a beleza e juventude eterna, atirou-se ao caldeirão, morrendo escaldada.
Ao se libertar da prisão do carvalho, Merlin procurou em vão, pelo caldeirão mágico. Reuniu os mais valentes dos cavaleiros britânicos, mas jamais encontrou tão poderoso talismã. Perdido o caldeirão de Clyddno Eiddyn, as iniciações dos cultos aos deuses pagãos enfraqueceram. Outra fé tomou conta da Bretanha. Merlin viu a suas tradições perdidas, os seus deuses extintos.

Lenda Medieval

21/12/2009

O milagre das rosas




D. Isabel, a mulher de D. Dinis, ocupava todo o tempo que tinha a fazer bem a quantos a rodeavam, visitando e tratando doentes e distribuindo esmolas pelos pobres.

Conta a lenda que o rei, que tinha muito mau génio apesar de ser também bondoso, se irritou por ver a rainha sempre misturada com mendigos, e proibiu-a de dar mais esmolas.
Certo dia, viu-a sair do palácio às escondidas, foi atrás dela e perguntou-lhe o que levava escondido por baixo do manto. Era pão para distribuir pelos pobres. Mas ela, aflita por ter desobedecido ao rei, disse:
- São rosas, Senhor!
- Rosas? Rosas em Janeiro? - duvidou ele - Deixai-me ver!
De olhos baixos, a rainha Santa Isabel abriu o regaço e o pão tinha-se transformado em rosas, tão lindas como jamais se viu.


20/12/2009

O cedro e as outras árvores

No meio de um jardim, junto a muitas outras árvores, havia um lindo cedro. Crescia a cada ano que passava, e seus galhos superiores eram muito mais altos que os das outras árvores.
- Tirem daí essa castanheira - disse o cedro, inflado de orgulho ante sua própria beleza. E a castanheira foi removida.
- Levem embora aquela figueira - disse o cedro - ela me incomoda. E a figueira foi arrancada.
- Tirem as macieiras - prosseguiu o cedro, erguendo alto sua bela cabeça. E as macieiras se foram.
Assim, o cedro fez com que uma a uma todas as outras árvores do jardim fossem arrancadas, até ficar sozinho, dono do grande jardim.
Porém um dia houve uma forte ventania. O lindo cedro lutou com todas as forças, agarrando-se à terra com suas longas raízes. Porém o vento, sem outras árvores para detê-lo, dobrou e feriu cruelmente o cedro e finalmente, com grande estrondo, derrubou-o ao chão.






15/12/2009

Monge taoísta da montanha Laoshan

O Liao Zhai Zhi Yi é a mais famosa colectânea chinesa de contos sobre demónios e imortais. O monge taoísta da montanha Laoshan é um desses contos.
Há uma montanha que se chama Laoshan à beira mar, onde vive um imortal, a que todos chamam de monge taoísta da montanha Laoshan. Dizem que ele conhece muitas bruxarias. Na cidade que situada a várias centenas de quilómetros da montanha Laoshan, há uma pessoa chamada Wang Qi. Desde criança, Wang adorava mágicas e, ao ouvir a notícia sobre o poder mágico do taoista, despediu-se de seus familiares e foi à montanha procurar o imortal. Encontrou-o e conversou com ele. Wang considerou que o monge tem muitas habilidades e pediu que fosse admitido como seu discípulo. Observado Wang, o monge disse: “você é mimado desde criança e não vai aguentar a vida difícil na montanha”. Mas, com a insistência de Wang Qi, o monge aceitou-o como discípulo.
À noite, Wang Qi, apreciando a Lua e pensando em obter imediatamente o poder mágico, sentiu-se muito feliz. No dia seguinte, logo na madrugada, foi ver o mestre imaginando que este o ensinasse bruxaria. Inesperadamente, o mestre deu-lhe uma machadada e mandou-o a cortar lenha junto aos seus colegas. Wang Qi ficou decepcionado, mas obedeceu à ordem. Nas montanhas, crescem muitos arbustos espinhosos e encontram-se por toda parte pedras. O Sol ainda está muito alto, Wang Qi já tem vários bolhas de sangue nas mãos e nos pés.
Um mês passou. As bolhas de sangue nas mãos e nos pés de Wang Qi calejaram. E Wang Qi não aguentava mais os trabalhos cansativos na montanha e pensou em voltar para casa. À noite, quando voltou com seus colegas ao templo, viu o mestre e alguns visitantes bebendo e conversando alegremente. No quarto, não havia luz. O mestre pegou uma folha de papel e cortou com tesoura um pedaço redondo de papel e o colocou na parede. O papel brilha como a Lua e iluminou todo o quarto. Um visitante disse: “Que noite linda e que delicioso o banquete. Divertimo-nos”. O monge taoísta pegou um pequeno bule de vinho e passou-o aos hóspedes. Wang Qi duvidou: como um pequeno bule de vinho atende a tantas pessoas? Mas, todos beberam e o bule estava sempre cheio. Wang Qi ficou admirado. Um outro hóspede disse nesse momento: “Apesar de contarmos com a Lua brilhante, o vinho não parece gostoso sem acompanhamento de danças”. O monge taoísta deu um sorriso e apontou uma folha de papel em branco com um pauzinho: apareceu no luar uma dançarina de apenas um chi de estatura (dez chi equivale a um metro), que ao descer no chão, tornou-se uma moça de estatura normal. Com o corpo delgado, pele branca e as cintas da roupa voando no ar, começou a cantar. Logo depois da cantoria, saltou para mesa.
No embaraço de todos os presentes, ela tornou-se novamente um pauzinho. Vendo isto, Wang Qi ficou boquiaberto. Neste momento, um hóspede disse: “Estou muito satisfeito, mas tenho que ir embora”. Dizendo, moveu-se para a Lua. A Lua obscureceu pouco a pouco. Os colegas de Wang Qi ascenderam as velas e viram o mestre sentando-se sozinho à mesa.
Mais um mês passou. O monge taoísta não ensinou nada a Wang Qi. Este perdeu paciência e foi ao mestre, dizendo: “Vim de muito longe. Se não quer me ensinar o método de imortalidade, transmita-me algumas pequenas magias para meu consolo”.
Vindo o mestre sorrindo sem pronunciar nenhuma respota, Wang Qi, ansioso, disse gesticulando: “Todos os dias saio de manhazinha e volto ao anoitecer para recolher ervas e lenhas. Os trabalhos são tão cansativos como nunca fiz em casa”. O mestre disse: “soubera que você não aquentaria o cansaço do trabalho. O ocorrido confirma a minha conclusão. Volte para casa amanhã”. Wang Qi insistiu em rogar: “Mas ensine-me algumas magias para que não venha em vão”. O mestre perguntou: “que magia que você quer aprender?” Wang Qi respondeu: “Vi o senhor caminhando e nem a parede o impediu. Quero aprender isso”. Então, os dois chegaram a uma parede. O mestre ensinou a Wang Qi um conjuro para atravessá-la, indicou a parede e mandou Wang Qi entrar. Mas este sentiu as pernas estremecendo e não se atreveu a dar nenhum um passo. O mestre continuou: “Tente”. Wang Qi deu alguns passos e pasou. Indignado, o mestre disse-lhe: “baixe a cabeça e ande para frente”. Sem outra saída, Wang Qi viu-se obrigado a lançar-se contra a parece, mas conseguiu atravessar a parede. Louco de alegria, Wang Qi se ajoelhou e agradeceu ao mestre. Nesse momento, o mestre disse a seu discípulo: “seja um homem diligente e laborioso quando regressar para casa. Caso contrário, a magia não dará efeito”.
Wang Qi voltou para casa e se gabou à sua senhora: “Encontrei um imortal que me ensinou algumas mágicas. Posso atravessar as paredes”. A mulher não acreditou nas suas palavras. Então, Wang Qi recitou o conjuro e correu para a parede. “Bong!” Wang Qi caiu no chão e sentiu um grande galo em sua testa. Wang Qi ficou desanimado com a cabeça deitada no peito, como um balão que acaba de desinflar. A mulher de Wang Qi, furiosa, disse ao marido: “Se existir alguma mágica, não aprenderia em apenas três meses”. Wang Qi recordou ter atravessado a parede naquela noite sob a orientação do mestre taoísta e duvidou que este o enganasse e desatou a maldizê-lo e da montanha Laoshan. Desde então, Wang Qi permaneceu como um homem sem habilidade.





Helena e Páris




Para o casamento de Peleu e Tétis todos os deuses foram convidados, excepto Éris ou Discórdia. Ofendida, a deusa tornou-se invisível e foi à grande boda, com a intenção de deixar numa mesa um pomo de ouro, onde estava gravada a seguinte descrição: “À mais bela”. Assim, as deusas Hera, Atena e Afrodite começaram imediatamente, a disputar o título de mais bela e o pomo. Zeus, o deus dos deuses, não quis ser o juiz, de forma a não magoar, nem ofender duas das deusas, pelo que este ordenou ao príncipe troiano Páris que tomasse uma decisão e resolvesse a disputa. De forma, a "subornar" o princípe, Atena ofereceu a Páris, poder nas batalhas que enfrentasse e sabedoria. Hera ofereceu riqueza e poder e Afrodite, por sua vez, ofereceu o amor da mulher mais bela do mundo. Páris deu o pomo a Afrodite ganhando assim, a sua proteção e o ódio das outras duas deusas.
A mulher mais bela do mundo era Helena de Esparta, filha de Zeus e de Leda, rainha de Esparta.
Assim, quando Páris foi a Esparta numa missão diplomática, apaixonou-se por Helena e ambos fugiram para Tróia, enfurecendo Menelau. Este apelou aos antigos pretendentes de Helena, que o ajudassem. Agamenon, assumiu o comando de um exército de mil naus e atravessou o mar Egeu, com o objectivo de atacar Tróia. Assim sendo, as naus gregas desembarcaram numa praia próxima de Tróia e iniciaram um cerco que iria durar dez anos e custaria a vida de muitos heróis de ambos os lados, sendo os mais notáveis Heitor e Aquiles.
Finalmente, seguindo um estratagema proposto por Odisseu, o famoso cavalo de Tróia, os gregos invadiram a cidade governada por Príamo e terminaram a guerra. O cavalo de Tróia revelara-se assim, uma armadilha. Este cavalo representava um pedido de paz grego e como tal, foi levado à presença do rei, sendo que os troianos o levaram para dentro das muralhas da cidade. À noite, enquanto todos dormiam, os soldados gregos que se escondiam dentro da estrutura de madeira do cavalo saíram e abriram os portões para que todo o exército entrasse e queimasse a cidade.

Contudo, o príncipe Páris morreu em guerra, havendo boatos de que este morrera aos braços de Helena depois de ter sido atingido durante a batalha. No entanto, ainda hoje se discute o fim de Helena. Algumas pessoas acreditam que sobreviveu à guerra, pois foi perdoada por Menelau, voltando para Esparta. Assim sendo, ainda hoje se discute a causa da sua morte, pelo que esta é muito controversa.

11/12/2009

Dionísio



Não foi fácil proteger o jovem deus da fúria ciumenta de Hera. Ela o perseguia sem cessar para se vingar nele da infidelidade do marido.
Zeus confiou Dionísio ainda bebé ao deus Hermes. Este o entregou ao rei Atamas e a sua esposa, Ino, para que recebesse uma educação digna da sua condição. A conselho de Hermes, a ama de Dionísio o vestia de menina para enganar Hera. Mas a deusa não demorou a descobrir a trapaça, levando à loucura os que acolheram o deus.
Zeus conseguiu salvar o bebé a tempo. Dessa vez, mandou-o para Nisa, uma cidade distante da África, de acordo com uns, ou da Ásia, segundo outros. O menino foi criado na montanha pelas ninfas do lugar. Para protegê-lo, seu pai lhe deu a aparência de um cabrito. Por isso, encarregou para o resto da vida dois chifrinhos na testa.
Durante a infância nas montanhas, Dionísio descobriu a vinha e aprendeu a fazer vinho das uvas. A partir de então, não parou de exaltar as qualidades da preciosa bebida. Nas festas que davam em sua honra, havia vinho à vontade. A embriaguez não gerava apenas alegria, mas também crises de furor, como os fiéis ao deus não tardaram a perceber...
Tornando-se adulto, o deus partiu da cidade da sua infância. Levou consigo um cortejo de fiéis, os sátiros e as bacantes. Vestindo peles de animais e armados de bastões adornados com hera, eles dançavam e cantavam ao som de tamborins e flautas. A sua passagem, provocavam pânico, por causa do seu aspecto selvagem. Com eles, Dionísio atravessou o Egipto e a índia antes de voltar à Grécia. Aí, foi para Tebas, onde ainda viviam as irmãs de sua mãe. Ao que parece, elas não tinham acreditado na união de Semeie com Zeus; logo, duvidavam da natureza divina de Dionísio. Mas ele estava decidido a lhes provar o contrário...
Dionísio entrou na cidade disfarçado de sacerdote. Seus fiéis logo se espalharam pelas ruas e praças, incitando os habitantes a abraçar o novo culto vindo do Oriente:
"Venham connosco para as montanhas. Lá, há vinho, leite e mel a rodo. Larguem seus teares, deixem suas roupas velhas! Vamos coroá-los com hera, pôr-lhes na cintura pele de animais e lhes daremos o tirso. Oi Bacchoi!"
Suas danças desenfreadas inquietaram o rei Penteu. Ele temia que aquele bando de possessos semeasse a desordem na cidade. Ordenou, portanto, a prisão do sacerdote e proibiu a celebração do culto. Alguns foram mandados para a prisão, mas a maio¬ria deles fugiu para o monte Citéron, acompanhados por mulheres tebanas seduzidas por suas práticas. Entre elas estava a própria mãe do rei, Agave, que se tornou bacante.
O deus fingiu se reconciliar com o rei e lhe propôs ir ao monte Citéron espiar o que as mulheres faziam. Surpreendidas por aquele intruso que não reconheceram, as bacantes, com Agave à frente, lançaram-se furiosas sobre ele, estraçalhando-o como feras.
Penteu pagou caro por sua desconfiança e resistência. Pereceu, punido por ter espionado as mulheres na intimidade, como um de seus ancestrais, Actéon, perecera por ter surpreendido Ártemis no banho.

Contos e Lendas da Mitologia Grega

09/12/2009

Querer ir para sul com a carruagem a andar para norte

Este provérbio é usado pelos chineses para criticar ou satirizar os que agem de forma contrária à razão, e os que, em vez de atingirem os seus objetivos, se afastam cada vez mais deles.
Este provérbio é uma tradição que remonta ao período dos Reinos Combatentes, que teve lugar há dois mil anos.


O soberano do reino Wei pretendia desencadear uma guerra contra o reino Zhao. O ministro Ji Liang, que se encontrava num terceiro reino em missão diplomática, inteirou-se da situação e não perdeu tempo em voltar ao seu país, a fim de pedir ao rei uma audiência para tentar impedi-lo de executar o seu plano de guerra.
Uma vez em presença do rei, dirigiu-se-lhe da seguinte forma:
- Meu respeitável senhor!Quando regressava ao nosso reino, encontrei um homem numa carruagem que corria em direcção ao norte, mas ele disse-me que se dirigia para o reino Chu. Perguntei-lhe então: “Mas se o reino Chu fica no Sul, porque é que está a dirigir-se para Norte?”
O homem, sem ligar à minha pergunta, respondeu com toda a calma: “O senhor não vê como os meus cavalos são velozes?”
“Por mais velozes que sejam os seus cavalos, nunca chegará ao seu destino”, retruquei eu então.
“Olhe, meu bom amigo, eu trago muito dinheiro para a viagem”, respondeu-me o homem, ao que eu lhe retorqui que, por mais dinheiro que tivesse, nunca conseguiria chegar ao reino Chu.
O homem deu uma gargalhada, dizendo-me: “Não se preocupe, meu bom amigo, pois o meu cocheiro é o melhor do mundo”.
Terminada a história, disse o ministro ao rei:
Não é mesmo estúpido? Por mais velozmente que os seus cavalos corram, por mais dinheiro que leve, e por melhor que seja o seu cocheiro, nunca chegará ao seu destino, pois segue na direcção errada. As boas condições de que goza só lhe servirão para se afastar cada vez mais do seu objectivo.
O ministro fez uma pausa, e continuou:
- Agora... o mesmo está a acontecer com Vossa Alteza. Com o vosso vasto território e com as vossas tropas bem treinadas, pretendeis invadir um outro reino em busca da hegemonia. Porém, a meu ver, Vossa Alteza está a comportar-se da mesma forma que aquele homem que, com a carruagem a andar para Norte, pretende ir para Sul. Para obter o controle de todos os reinos, deve obter em primeiro lugar a confiança de todos. Ao recorrer à guerra, se afastará do seu objectivo.
Aceitando a crítica do seu ministro, o rei Wei suspendeu o seu plano de guerra.


Desta antiquíssima história ficou o provérbio chinês Querer ir para Sul com a carruagem a andar para o Norte.





Os amores de Zeus


O rei dos deuses não se dedicava apenas a desgraçar os homens. Também procurava fazer as mortais felizes, sobretudo aquelas que lhe agradavam... e foram muitas.
Embora fosse casado com a deusa Hera, Zeus teve inúmeras aventuras amorosas. Sua legítima esposa era ciumentíssima e não gostava nem um pouco das escapulidas do marido. Quando vinha a saber que ele tinha ido visitar uma mortal, ficava louca de raiva. Sua cólera só se aplacava quando ela se vingava da mortal ou dos filhos que essa mulher tivera com o deus. Hera estava sempre de olho em Zeus, que fazia de tudo para escapar à sua vigilância.
Zeus gostava de assumir a aparência de algum bicho a fim de evitar a desconfiança de suas bonitas vítimas. Usou dessa artimanha para se aproximar da bela Leda. A jovem acabara de se casar com Tíndaro, rei da Lacedemónia. Zeus se transformou em cisne e, fingindo-se perseguido por uma águia, refugiou-se junto da jovem rainha, que o acolheu em seus braços. Aproveitando-se dessa terna proteção, ele se uniu a ela e lhe deixou dois ovos de tamanho incomum. De um nasceram dois gêmeos, Castor e Pólux; do outro, duas irmãs, Clitemnestra e Helena. Essa união permaneceu secreta, e Tíndaro acreditou que tinha dado quatro filhos à sua jovem esposa.
Os filhos nascidos das uniões passageiras de Zeus com as mortais tiveram um destino bem particular. Alguns conquistaram grande poder, como Minos, que se tornou um dos três juízes do Inferno.
A mãe de Minos era humana e se chamava Europa. Zeus tinha visto a moça quando ela jogava bola com as amigas à beira-mar. Impressionado com a delicadeza da sua silhueta e com a pureza de seus traços, não resistiu ao desejo de conhecê-la melhor. Não longe dali, pastavam touros novos. Ele se misturou ao rebanho na forma de um touro ainda mais bonito que os outros, notável por sua brancura e pelo vigor dos músculos.
Europa ficou encantada com o esplendor do animal e a ternura do seu olhar. Sem medo do tamanho do touro, ela se aproximou dele, acariciou-o demoradamente e, confiante, montou nele. Nesse momento, o deus a raptou diante dos olhares impotentes das outras moças e a carregou pelos ares, acima do mar. O casal desapareceu no horizonte. Conta-se que Zeus levou Europa a Creta, onde ela deu à luz Minos.
Quando estava na terra, Zeus nunca se mostrava em sua forma divina. Somente uma vez desobedeceu a essa regra.
Tinha seduzido Sêmele, filha de Cadmo, rei de Tebas. A jovem mulher só se encontrava com ele à noite, portanto não conhecia a fisionomia do amante. Ela sabia que Zeus era um deus porque ele lhe sussurrara isso mais de uma vez. Hera, morrendo de ciúme ao ver o divino esposo apaixonado por uma mortal novamente, armou uma cilada para a rival.
Foi ter com Sêmele, sob a aparência de uma velhinha:
"Minha filha, peça-lhe como prova de amor que ele se mostre tal como é nos céus ao lado da esposa. Assim, você terá certeza de não ter sido enganada por um impostor."
Essas palavras fizeram a dúvida surgir no coração da jovem. Ela quis ver o amante e pediu que ele lhe fizesse um favor, mas não disse qual era. O deus aquiesceu, e quando soube do que se tratava, era tarde demais: dera sua palavra. Tentou então desencorajar a moça. Em vão. Quanto mais procurava dissuadi-la, mais ela insistia.
Obrigado a cumprir o que prometera, ele se revelou em toda a sua potência, resplandecendo em relâmpagos. Ora, nem os olhos nem o corpo de uma mortal eram capazes de suportar o brilho daquela luz tão viva, e a infeliz nem teve tempo de entender isso: pereceu imediatamente, fulminada.
Acontece que Sémele estava no sexto mês de gravidez, e Zeus se apressou a salvar o filho que ela trazia no ventre. Para dar continuidade à gestação, o deus abriu, na própria coxa, uma bolsa e nela colocou a criança. Depois, fechou-a com grampos de ouro. Quando o tempo fixado pelo destino chegou a seu termo, Zeus deu à luz Dionisio. Embora nascido de uma mãe mortal, o me¬nino, por causa do pai, era imortal.

Contos e Lendas da Mitologia Grega

08/12/2009

Uma lenda Tchokwé



Um dia o Sol foi visitar Deus. Deus ofereceu ao Sol uma galinha e disse-lhe: “Regressa de manhã antes de te ires embora”. De manhã a galinha cacarejou e acordou o Sol. Quando o Sol revisitou Deus, ele disse-lhe: “Não comeste a galinha que te dei para o jantar. Podes então ficar com a galinha mas deves regressar aqui todos os dias.” Daí a razão porque o Sol circula a terra e nasce todas as manhãs.
A Lua também foi um dia visitar Deus e também recebeu uma galinha como presente. De manhã a galinha cacarejou e acordou a Lua e Deus voltou a dizer-lhe: “Não comeste a galinha que te dei para o jantar. Podes então ficar com a galinha mas deves regressar aqui em cada vinte e oito dias.” Daí a razão porque a circulação total da Lua dura vinte e oito dias.
Um homem foi visitar Deus recebendo também uma galinha como presente mas o homem estava com fome depois de tão longa caminhada e comeu parte da galinha para o jantar. Na próxima manhã já o Sol estava bem alto quando o homem acordou. Comeu o resto da galinha, visitando Deus em seguida. Deus disse-lhe: “eu não ouvi a galinha cacarejar esta manhã.” O homem com certo receio respondeu: “eu tive fome e comi-a.” “Está bem,” disse Deus, “mas ouve, tu sabes que o Sol e a Lua estiveram aqui e nenhum deles matou a galinha que lhes ofereci.” Essa é a razão que nem o Sol nem a Lua morrerão um dia. Mas tu mataste a tua galinha e assim deves morrer como ela. Porém, à tua morte, deves regressar aqui outra vez.”

E assim foi.


Lenda do Nordeste de Angola


A Raposa e o Lobo

FalklandIslandFox2.jpg

Foram caçar no melhor convívio uma raposa e um lobo. Apanharam dois carneiros. Comeram um e enterraram o outro para o jantar do dia seguinte.
No dia seguinte chegou o lobo e disse para a comadre raposa:
— Vamos comer o carneiro?
— Hoje não: estou convidada para madrinha de uma criança.
No dia seguinte voltou o lobo e perguntou à comadre que nome dera ao afilhado:
— Um nome novo: Comecei.
E ainda a raposa se desculpou nesse dia dizendo que ia ser madrinha de outro afilhado.
Voltou o lobo e perguntou à comadre que nome pusera ao afilhado.
— Meei — respondeu a espertalhona — e pena tenho eu de ainda não o poder acompanhar. Tenho hoje outro afilhado que baptizar, mas amanhã vou com certeza.
No dia seguinte voltou o lobo e perguntou-lhe pelo nome do afilhado.
— Pus-lhe: Acabei.
E ambos se dirigiram para o lugar onde o carneiro fora enterrado. E claro que a raposa tinha sozinha papado o carneiro, deixando-lhe o rabo espetado no chão. Logo que avistaram o rabo disse a raposa para o lobo:
— Enquanto eu aqui tiro um espinho do meu pezinho, vá o meu compadre andando, puxe com força pelo rabo, e vá comendo e saboreando a carne.
O lobo seguiu o conselho da raposa. Lançou-se ao rabo com tanta força que caiu de costas c m o rabo na boca. Carne nenhuma. Já a este tempo a raposa se tinha esgueirado para muito longe.


Ataíde Oliveira, Contos Tradicionais Portugueses

07/12/2009

O chapim de El-Rei ou parras verdes




I

Verdes parras tem a vinha,
Ricas uvas nela achei,
Tem maduras, tão coradas...
Estão dizendo «comei!»

«Quero saber quem nas guarda;
Ide, mordomo, e sabei.»
Disse o rei ao seu mordomo.
Mas porque o dizia o rei?

Porque viu naquele monte
- E como ele o viu não sei –
Essa dona emparedada,
Não se sabe pó que lei,

Que por seu mal é condessa,
Condessa de Valderei:
Antes ser pobre e vilão,
Antes pela minha fei! 17

*

Verdes parras tem a vinha:
Uvas que lhe vira el-rei
Tão maduras, tão coradas,
Estão dizendo “comei!”

II

Veio o mordomo do monte:
- Boas novas, senhor rei!
A vinha anda bem guardada,
Mas eu sempre lá entrei.

«O dono foi-se a outras terras,
Quando voltará não sei;
A porta é velha, e a porteira
Com chave de ouro a tentei.

«Serve a chave à maravilha,
Tudo por fim ajustei:
Esta noite, à meia – noite,
Convosco à vindima irei.»

- «Valeis um reino, mordomo,
Grandes mercês vos farei :
Esta noite, à meia – noite,
Ricas uvas comerei.»

*

A vinha tem parras verdes,
Madura a uva lhe achei;
E tão madura, tão bela,
Que está dizendo «comei!»

III

Ao pino da meia – noite
Foi mordomo e foi o rei:
Doblas que deram à velha,
Um conto que nem eu sei.

- «Mordomo ficai à porta,
À porta que eu entrarei;
Não me saltem cães na vinha
Enquanto eu vindimarei.»

A porteira o que lhe importa
É o dá – me que te darei...
No camarim da condessa
Veis agora entrar o rei.

Levava um candil aceso;
Era de prata, sabei:
Não há senão prata e oiro
Na casa de Valderei .

*

Da vinha as parras são verdes,
As uvas maduras sei,
São tão coradas, tão belas ...
Delas – quando comerei!

IV

No camarim da condessa
Tudo andava à mesma lei,
Era o céu daquele anjo:
Que mais vos diga não sei.

Ricas sedas de Milão,
Toalhas de Courtenei...
Tremia o rei – se era susto,
Se era de gosto não sei.

Cortinas de seda verde
Vai ergo não erguerei...
Tal clarão lhe deu na vista,
Como não caiu não sei.

Era uma tal formosura...
Ora que mais vos direi ?
Outro primor como aquele
Não vistes nem eu verei.

*

Verdes parras tem a vinha,
Ricas uvas lhe avistei,
Tão formosas, tão maduras,
Estão dizendo «comei»!

V

Dormia tão descansada
Como eu no céu dormirei
Quando for tão inocente ...
Jesus ! se eu lá chegarei !

De joelhos toda a noite
Ali fica o bom do rei,
Pasmado a olhar para ela
Sem bulir nem mão nem pei. 18

E dizia : _ “Senhor Deus”!
Perdoai-me o que já pequei,
Mas este anjo de inocência
Não seu eu que ofenderei.”

*

Tem verdes parras a vinha;
Lindas uvas que eu lhe achei,
Tenho medo que me travem...
Delas, ai! não comerei.

VI

Já vinha arraiando o dia,
E ele, como vos contei,
Ouve apitar o mordomo ...
- «Jesus, Senhor, me valei!»

Era o sinal ajustado
- Vindo o conde, apitarei –
Deixou cair as cortinas
Dizendo: - «Não vindimei!»

*

Lindas parras tem a vinha,
Belas uvas nela achei;
Mas doeu- me a consciência,
Das uvas não comerei.

VII

Deita a correr com tal pressa
Que voava o bom do rei:
«Ai que perdi um chapim...»
- «Tomai, que um meu vos darei.

«Mas nem um instante mais,
Que o conde já avistei;
Descendo daquela altura;
Se nos colherá não sei...»

Era o medo do mordomo:
Outro era o medo do rei.
Qual deles tinha razão
Agora vo–lo direi.

*

Parras verdes viu na vinha,
Uvas maduras de lei;
Foi travo da consciência,
Diz: - «Delas não comerei.»

VIII

Chega o conde à sua torre
O conde de Valderei.
Topou num chapim bordado ...
Como ficou não direi.

Vai –se ao quarto da condessa:
«Morrerá, mata-la-ei.»
Viu – a dormir tão serena:
- «Jesus! Não sei que farei.»

Corre a casa ao derredor:
- «Deus me tenha em sua lei,
Que ou esta mulher é bruxa
Ou eu c’o chapim sonhei!

«O chapim aqui o tenho,
O chapim bem no topei...
Mas que durma assim tão manso
Quem tal fez, não no crerei.»

Entrou a cismar naquilo:
- «Valha –me Deus! Que farei?
Por menos fica doido;
E eu como o não ficarei?»

*

Minha vinha tão guardada!
Uvas que nela deixei
Não é fruta que se conte ...
Da que me falta não sei.

IX

Foi-se fechar no mais alto
Da torre de Valderei:
- «Não quero comer do pão,
Nem do vinho beberei;

«Minhas barbas e cabelos
Também mais os não farei,
Que esta verdade não saiba
Daqui me não tirarei.»

Verdes parras dessa vinha,
Uvas que eu não comerei,
Ficai-vos secas embora,
Que eu já’gora – morrerei.

X

Por três dias e três noites
Que se guarda aquela lei;
Clama a triste da condessa:
- «Ao seu mal que lhe farei?»

De quem foi ela valer –se ?
Agora vo –lo deirei.
Foi lastimar –se a inocente ...
Onde iria? _ ao próprio rei.

- «Ide, condessa, ide embora,
Que eu remédio lhe darei;
O segredo do seu mal
Sei –o eu... Se o saberei?

«Palavra de cavaleiro
Em lealdade vos darei,
Que ou ele há de ser o que era,
Ou eu, quem sou, não serei.»

*

As verdes parras da vinha,
As uvas que eu cobicei,
Elas a travar –me n’alma ...
E mais delas não provei!

XI

Fora dali a condessa,
Não tardou em ir o rei:
- «Quero ouvir o que eles dizem,
A esta porta escutarei.»

Ouvi uma voz celeste
Como tal nunca ouvirei,
Cantando em doce toada
Este triste virelei:

- Já fui vinha bem cuidada,
Bem querida, bem tratada:
Como eu medrei!
Ora não sou nem serei:

O porquê não se
Nem no saberei!”
Com as lágrimas nos olhos
Foi dali o bom do rei:

- «Oiçamos agora o outro,
E o que sabe, saberei!»
- «Minha vinha tão guardada!
Quando nela entrei

Rastos do ladrão achei;
Se me ele roubou não sei:
Como o saberei?»
Era o conde a lastimar–se.

Sorrindo dizia o rei
(Se era de si ou do conde
Que ele se ria não sei):
- «Eu fui que na vinha entrei,

Rastos de ladrão deixei,
Parras verdes levantei,
Uvas belas
Nelas – vi:

E assim Deus me salve a mi
Como delas
Não comi!»

XII

A porta tinha uma fresta:
Tirou o chapim do pei,
Atirou –lho para dentro,
Disse –lhe : «Vede e sabei.»

Do mais que ali sucedeu
Para que vos contarei?
O conde soube a verdade,
E o rei soube – ser rei.

*

Verdes parras tem a vinha,
Ricas uvas lá deixei:
Quem ma guardou foi o medo ...
De Deus e da sua lei.


Romanceiro, Almeida Garrett

06/12/2009

Hildebrando




A fama de valente acompanhou toda a vida heróica de Hildebrando. Emocionando por voltar a sua terra, o velho cavaleiro cavalgava solitário. Sentia o vento frio da primavera a bater no seu rosto austero, curtido pelo sol e pelas marcas adquiridas nas batalhas que lhe fizeram a fama. Próximo do seu reino, Hildebrando viu, ao longe, a figura de um jovem guerreiro, com um porte da mais alta estirpe. O jovem preparava a armadura e a lança, pronto para conduzir o seu exército. Diante daquela cena que se armava em campo de batalha, Hildebrando correu a lembrança por todos os momentos da sua vida.
Quando novo, dedicara-se à educação de Teodorico, fazendo dele um dos maiores reis dos ostrogodos. Casara-se com a mulher mais bela do seu povo. Do ventre da amada, nascera um filho. Hildebrando, já cavaleiro de Teodorico, tendo a vida marcada por longas batalhas em favor do seu rei, só queria viver a paz de amar a mulher e contemplar o crescimento do filho. Mas o destino soprou-o na direcção contrária à paz. Um dia surgiu o sanguinário Odoacro, que ao pôr fim ao Império Romano do Ocidente, tornara-se o primeiro rei bárbaro em Roma. Para escapar da fúria de Odoacro, Teodorico fugiu, seguido dos seus cavaleiros.
Sempre fiel, Hildebrando acompanhou o seu rei, deixando às costas, a mulher e o filho. Por trinta anos o cavaleiro sofreu com a ausência da família. Seus olhos firmes marejavam ao se lembrar que não acompanhara o crescimento do filho. Sonhava com o dia em que voltaria a abraçá-lo, tê-lo contra o peito, finalmente.
Ao lado de Teodorico, Hildebrando invadiu a península Itálica e, bravamente, derrotaram Odoacro em Verona. O cavaleiro já poderia voltar para a família.
Sob o seu cavalo, Hildebrando viu, tão perto, a sua terra amada. Inesperadamente um exército, comandado por um jovem intrépido, se lhe pôs no caminho. Seria a última batalha que travaria em vida. Após o seu término, voltaria para os braços da mulher e o amor do filho. Decidira depor a lança e a espada. Na sede de encontrar a paz, Hildebrando lançou-se com fúria contra o jovem que liderava o exército que se lhe obstruía a passagem.
Minutos depois, Hildebrando estava frente a frente com o jovem guerreiro. Estava pronto para desferir a sua lança, quando uma emoção estranha possuiu-lhe o coração. Mansamente aproximou-se do jovem, perguntando-lhe:
-Quem sois vós, bravo e audacioso guerreiro? De que estirpe herdai tão fervorosa coragem, tão garbo semblante?
-Sou Hadubrand, filho de Hildebrando, o mais valente cavaleiro de todos os tempos, fiel servidor do rei Teodorico de Verona. Dele herdei a coragem que me faz defender o meu povo dos bárbaros e forasteiros como vós. Armai a vossa espada e a vossa lança, que em nome do meu saudoso pai, derramarei o vosso sangue de invasor! Pela honra do sangue que se me escorre nas veias, derramarei o vosso sobre a relva espargida pela primavera.
Hildebrando sentiu o coração saltar-lhe, sendo tomado pela mais forte das emoções. Ali, no último campo de batalha que decidira travar na vida, estava o próprio filho, que deixara de ser a sombra da lembrança, adquirindo o corpo do mais valente de todos os jovens guerreiros. Com a voz embargada, Hildebrando conseguiu dizer as palavras que guardara por todos os anos de exílio:
-Não sofras mais pela saudade, Hadubrand, pois sou eu, Hildebrando, o pai ausente, que tanto te fustiga a saudade. Assim como eu, tu és o mais valente dos bravos. Não me ergas a espada e a lança, mas os braços, pois de ti quero um longo e infinito abraço.
Ao ouvir as palavras do forasteiro, Hadubrand sentiu a cólera invadir o seu coração. Leu em cada palavra proferida, uma blasfémia à memória do pai.
-Como ousai a passar pelo mais honrado dos homens? Não vos permitirei que me vença com tão grotesco ardil. Fazei uma última prece, porque a minha lança já está pronta para trespassar o vosso coração enganador!
Furioso e incontrolável, o jovem lançou em disparada rumo a Hildebrando. De lança em punho, verteria o sangue do forasteiro, dedicando a vitória à memória do pai distante. Hildebrando viu a fúria do jovem na sua direcção. Palavra alguma demoveria o valente do seu propósito. O que fazer naquele momento, morrer nas mãos do filho? Defender-se diante da sua prole, como quem se defende de um feroz inimigo? Hildebrando sentiu o vento da lança do filho a aproximar-se do seu corpo, em um gesto instintivo, sem que se lhe apercebesse dele, ergueu a sua lança. No ar ecoou um grande grito de dor. Um corpo tombou no chão. O sangue lavou a terra das sementes da primavera. A morte já pairava no horizonte.
O cavaleiro sobrevivente desceu do seu cavalo. Era Hildebrando. Ajoelhou-se diante do corpo do filho, que emitia um último suspiro. Antes que a morte cortasse o cordão da vida, Hadubrand sorriu, reconhecera, no último instante, os olhos lacrimejantes do pai. Hildebrando abraçou-se ao corpo inerte do jovem. Matara tantos inimigos, e, tragicamente, encerrava a sua epopeia a verter o sangue do próprio filho, como se o céu lhe cobrasse todos os seus mortos.


Lenda medieval

Poseidon


O palácio dourado do deus marinho cintilava nas águas profundas e calmas de uma ilha. Poseidon vivia ali em companhia da rainha Anfitrite. Às vezes saía do fundo arenoso; o mar então se abria para deixar seu carro passar. E ao lado dele se viam as ninfas e os monstros pulando de alegria.
Seus passeios nem sempre eram de bom agouro. O deus era muito irritadiço. Quando sua raiva chegava ao auge, ele surgia das águas brandindo seu tridente. Podia desencadear tempestades e promover a subida da água dos rios, que transbordavam. Também sabia fazer o chão tremer, provocando os terramotos. Por isso, os homens o temiam e tomavam a precaução de lhe oferecer esplêndidos sacrifícios antes de iniciar uma viagem no mar.


Contos e lendas da mitologia grega

A caravana




Uma caravana do deserto caminhava penosamente num terreno árido, poeirento e pedregoso. As pessoas que a compunham tinham todas fé absoluta no guia e, confiadamente, entregavam-lhe a ele todas as decisões. Gostavam de o fazer, sobretudo quando, devido ao intenso calor do sol, ele decidiu que viajassem de noite, reservando o dia para dormir.
Certa noite, após uma jornada particularmente esgotada, o guia de repente, exclamou:
- Alto. Deter-nos-emos aqui por alguns momentos. Como vêem, atravessamos neste momento, um terreno invulgarmente pedregoso. Quero que se abaixem e apanhem todas as pedras que condigam alcançar. Talvez consigam encher as bolsas e levá-las assim cheias para casa. Vamos depressa! Prosseguiu batendo as palmas, tendes apenas cinco minutos; passados eles, retomaremos a marcha.
- Os viajantes, que apenas desejavam um prolongado descanso e um sono repousante, pensaram que o guia tinha enlouquecido.
- Pedras? Disseram eles. Quem pensa ele que somos nós? Uma califa de camelos?
Somente alguns fizeram o que o guia sugerira: meteram nas bolsas uns quatro punhados de pedras soltas
- Bem, cheia!, Disse o guia. Toca a andar de novo!
Enquanto continuavam a difícil caminhada, durante o resto da noite, todos se encontravam demasiado cansados para se darem ao incomodo de falar. Mas todos continuavam a perguntar a si mesmos eu poderia significar as estranhas ordens daquele guia.
Quando o sol se levantou no horizonte, a caravana deteve-se de novo. Todos armaram as suas tendas. Os poucos viajantes que tinham apanhado as referidas pedras puderam vê-las nitidamente pela primeira vez. Assombrados, começaram a gritar:
- Santo Deus! Todas elas são cores diferentes! E como brilham! Realmente são pedras preciosas!
Mas essa sensação de júbilo depressa deu lugar à outra de depressão e abatimento:
- Porque não tivemos bom senso de seguir as ordens do guia? Se assim fosse, teríamos apanhado a maior número de pedras possível!



04/12/2009

A Idade de ouro



Crono não era apenas um deus violento e ávido de poder. Ele presidia uma raça de homens a que os deuses tinham dado uma existência amena e pacífica, semelhante à deles. Como os deuses, os homens não envelheciam e não sabiam o que era cansaço nem dor. Para se alimentar, não precisavam trabalhar, porque a terra, sem ser cultivada, produzia o ano inteiro frutos em abundância. Sem esforço, portanto, os homens colhiam frutas deliciosas nos arbustos, abaixando-se somente para catar os morangos saborosíssimos que a natureza lhes oferecia. Não necessitavam usar roupa, porque só havia uma estação, a primavera.
Sua vida tranquila era marcada por festas em que as relações de amizade e mútuo bem-querer se expandiam. Esses tempos eram chamados de idade de ouro porque tinham a pureza, a riqueza e a eternidade do ouro. Mas essa raça de homens acabou se extinguindo, e outra a sucedeu.

Contos e Lendas da Mitologia Grega


03/12/2009

Prometeu e os primeiros homens




Em seguida, os deuses criaram do barro os seres vivos. Sem perceber, privilegiaram os animais, em detrimento dos homens.
De facto, os primeiros receberam as qualidades físicas que lhes permitiam se adaptar perfeitamente ao meio natural. Alguns, como o urso, foram dotados de grande força; outros, menores, como os passarinhos, ganharam asas para fugir. A divisão parecia equitativa, e as qualidades distribuídas entre as diversas espécies se equilibravam. Mas uma das espécies foi esquecida: a humana. Com sua pele apenas, os homens não podiam suportar o frio, e seus braços nus não eram suficientemente robustos para combater os animais selvagens. A raça humana estava ameaçada de extinção...
Prometeu, filho do titã Jápeto, sentiu pena dos fracos mortais. Ele sabia que a inteligência deles possibilitaria que fabricassem armas e construíssem abrigos se eles tivessem meios para isso, mas lhes faltava um elemento essencial: o fogo. Com o fogo, poderiam endurecer a ponta de suas lanças, a fim de torná-las mais resistentes, e se aquecer em seu lar.
Ora, os deuses conservavam com o maior cuidado a preciosa chama só para si. Prometeu teve que penetrar discretamente na forja de Hefesto, o deus do fogo, para roubar a chama, que levou para os homens oculta no oco de uma raiz.
Zeus não ignorou por muito tempo esse furto. Assim que notou o brilho de uma chama entre os mortais, o poderoso soberano deu vazão à sua cólera. No mesmo instante jurou se vingar dos homens e do benfeitor deles, Prometeu.
Combatendo uma esperteza com outra, teve a ideia de produzir uma criatura irresistivelmente encantadora que causaria a desgraça dos homens. Assim, usando barro, criou a primeira mulher, que chamou de Pandora. Contou com a ajuda de Hefesto, que a enfeitou com as jóias mais delicadas, e de Atena, que a vestiu com um tecido vaporoso, preso na cintura por um cinto trabalhado artisticamente.
Quando ela ficou pronta, Zeus a mandou à casa de Epimeteu, irmão de Prometeu. Conhecia a ingenuidade e a imprudência desse deus. Não podendo resistir aos atractivos de tão bela pessoa, Epimeteu esqueceu que o irmão o prevenira contra os presentes de Zeus. Recebeu Pandora e a instalou em sua casa.
Pandora havia trazido consigo uma caixa que não deveria abrir em hipótese nenhuma. Isso lhe fora expressamente recomendado por Zeus ao lhe dar a caixa. Era mais uma esperteza, porque ele sabia muito bem que um dia a jovem iria querer descobrir o conteúdo dela.
Movida pela curiosidade, Pandora acabou abrindo a caixa... de onde saiu precipitadamente um vento de desgraças. Apavorada, ela viu passar a fisionomia ameaçadora da crueldade e o sorriso malicioso do engano. Ouviu os gritos queixosos dos miseráveis e dos sofredores. Outras desgraças começavam a se propagar assim no vasto munido. Quando Pandora descobriu seu trágico erro, tampou rapidamente a caixa. E então a Esperança e todas as promessas de felicidade para os homens ficaram para sempre trancadas ali.
Nada disso se devia ao acaso: a primeira etapa da temível vingança de Zeus se consumara.
O segundo castigo, mais cruel, iria atingir Prometeu. Zeus o acorrentou a um rochedo com cadeias que o prendiam dolorosamente pelos braços e pernas. Assim exposto, sem poder se defender, Prometeu sofria todos os dias o ataque de uma águia que vinha lhe devorar o fígado. E todos os dias, para seu suplício, seu fígado se recompunha. Em troca de um favor, Prometeu recebeu uma terrível punição.
Quanto aos homens, eles aprenderam com isso que um bem podia vir acompanhado de uma desgraça.

Contos e Lendas da Mitologia Grega

O cego





- «Abre a porta, Ana, abre de mansinho,
Que venho ferido, morto do caminho.»
- «Se vindes ferido, pobre coitado!
Ireis muito embora por outro caminho.»
- «Ai! abre-me a porta, abre de mansinho,
Que tão cego venho, não vejo o caminho.»
- «Porta nem postigo não abro ao ceguinho,
Vá-se na má hora pelo mau caminho.»
- «Ai do pobre cego que anda sozinho
Cantando e pedindo por esse caminho!»

Minha mãe acorde, oiça aqui baixinho
Como canta o cego que perdeu o caminho»
- «Se ele canta e pede, dá-lhe pão e vinho;
E o pobre cego que vá o seu caminho.»
- «O teu pão não quero, não quero o teu vinho,
Quero só que Aninhas128 me ensine o caminho.»
- «Toma a roca, Ana, carrega-a de linho,
Vai com o pobre cego, pô-lo a caminho.»
- «Espiou-se a roca, acabou-se o linho,
Fique embora o cego, que este é o seu caminho.»
- «Anda mais, Aninhas, mais um bocadinho,
Sou um pobre cego, não vejo o caminho.»
- «Ai! arreda, arreda para este altinho,
Que aí vêm cavaleiros por esse caminho.»
- «Se vêm cavaleiros, vêm devagarinho,
Que há muito me tardam por este caminho.»
A cavalaria passou de mansinho...
Cego, lo meu cego já via o caminho.
Montou-me a cavalo com muito carinho...
Um cego me leva... e vejo o caminho!

Romanceiro, Almeida Garrett

02/12/2009

Quando a Morte chegou a Bagdad

O discípulo de um sufi de Bagdad estava certo dia sentado a um canto de uma hospedaria, quando ouviu dois personagens conversarem. Pelo que pôde ouvir, percebeu que um deles era o Anjo da Morte.
- Tenho várias visitas para fazer nesta cidade durante as próximas três semanas - dizia o anjo a seu companheiro.
- Aterrorizado, o discípulo procurou ocultar-se até que aqueles dois partissem. Então, apelando à sua inteligência para resolver o problema de como frustar uma possível visita da morte, concluiu que, caso se mantivesse distante de Bagdad, não seria vitimado. Dessa ideia à resolução de alugar um cavalo, o mais veloz ali existente, foi apenas um passo. O discípulo montou no animal e picando esporas cavalgou noite e dia rumo à distante cidade de Samarkand. Enquanto isso, a morte se encontrou com o mestre sufi e conversaram a respeito de várias pessoas.
- Por falar nisso, onde está aquele seu Discípulo? - Indagou a morte.
- Deve estar em algum lugar desta cidade, empregando seu tempo em contemplação, talvez numa hospedaria - Retrucou o sufi.
- Que estranho... - disse o Anjo da Morte. - Ele se acha em minha lista. Sim, aqui está: tenho que recolhê-lo dentro de quatro semanas, nada menos que em Samarkand.

29/11/2009

Lenda do Túmulo dos Dois Irmãos


Era linda, a rapariga, olhos de moura encantada, que não fugira às hostes do rei conquistador e ali ficara, a enfeitiçar os jovens que por ela se perdiam por amores. E a jovem leviana, cortejada pelos mocetões valentes do lugar, para todos tinha um sorriso e uma esperança. Dois irmãos disputavam os seus favores e a sua predilecção, desconhecendo ambos que o mesmo sentimento os animava. Certa noite que a lua caprichava em cobrir aquela terra com um lençol de luz e cantavam as cigarras nos valados, encontraram-se os dois irmãos sobre a janela da mulher que amavam. Investiram, e só quando o ferro fratricida prostrava um contendor para sempre o outro reconheceu que assassinara o seu próprio irmão a quem muito queria. Ali mesmo se deu à morte, dizendo o povo que num túmulo de uma zona nobre da região se encontram agora sepultados os dois irmãos unidos na morte que o amor lhes dera.

Lenda árabe

Uma lenda oriental sobre a reacção aos actos dos outros.

Diz uma linda lenda árabe que dois amigos viajavam pelo deserto e em determinado ponto da viagem discutiram. O outro, ofendido, sem nada a dizer, escreveu na areia:
Hoje, o meu melhor amigo bateu-me no rosto.

Seguiram e chegaram a um oásis onde resolveram banhar-se. O que havia sido esbofeteado começou a afogar-se sendo salvo pelo amigo. Ao recuperar pegou um estilete e escreveu numa pedra:
Hoje, o meu melhor amigo salvou-me a vida.

Intrigado, o amigo perguntou:
Porque é que quando te bati, escreveste na areia e agora escreveste na pedra? Sorrindo, o outro amigo respondeu: "Quando um grande amigo nos ofende, devemos escrever na areia onde o vento do esquecimento e do perdão se encarregam de apagar; porém quando nos faz algo grandioso, deveremos gravar na pedra da memória do coração onde vento nenhum do mundo poderá apagar".



O deserto, o sol e o vento



No princípio, era o Deserto; e o Sol amava-o, ternamente, todo o dia. No princípio, o Deserto era liso, todo aberto à luz do Sol, que o abraçava, estreitamente, todo o dia. O Deserto era quente e brilhante e vivia numa passividade feliz – quieto e silencioso.
De noite, o Sol queria o Mar, e o Deserto dormia sozinho, na escuridão. Mas guardava o calor que o Sol lhe dera. E vivia quieto e silencioso, numa passividade feliz.
O Vento chegou de noite, quando o Deserto dormia.
Olhou o Grande Deserto solitário. Soprou-lhe devagarinho, num beijo de aragem...e o Deserto sentiu um arrepio e acordou. O Vento soprou com mais força e o Deserto estremeceu.
- Gostas de mim? – perguntou o Vento.
- Sinto uma alegria nova – respondeu o Deserto.
- É a alegria do movimento. Queres que te dê toda a força do meu sopro?
- Sim – gritou o Deserto – Quero!
Então, o Vento abraçou o Deserto com violência. E toda a noite se ouviu a música forte e harmoniosa que, juntos, cantavam num bailado.
Quando o sol, de manhãzinha, voltou, abriu muito os olhos e empalideceu. Alguém passara a noite com o Deserto: em vez de areal sem forma, que se deixava doirar passivamente, era um Deserto novo, de dunas altas, belas e orgulhosas que recusavam ao sol uma das faces.
- Quem te abraçou, Deserto? – perguntou o Sol.
- O Vento! – respondeu.
- Não te bastava a minha luz e o meu calor?
- Nunca me deste vida.
- A tua vida é sombra?
- A minha vida, Sol, recebi-a do Vento. A minha vida é areia em movimento e o som que dela se desprende eu guardo em mim.
- O movimento é dor; o som é queixa.
- Aceito a dor que é a vida; e cantarei, no braço do Vento, a dor e a alegria de criar, com ele, as minhas dunas.


Lenda de Angola




lenda de Vangghi




Vangghi viveu na dinastia dos Tsin, na montanha Kuchau, e entregava-se feliz e ditoso à agricultura.
Era raro o dia em que não ia ao bosque apanhar lenha, mas, certa tarde, surpreendido por forte tempestade, foi obrigado a meter-se numa caverna. Ali encontrou vários homens de muita idade e longa barba que jogavam o xadrez.
Não resistiu à tentação e resolveu tomar parte do jogo. Em dado momento, um dos velhos de barba branca meteu-lhe um caroço de tâmara na boca, pedindo-lhe que o engolisse.
Adormeceu pesadamente e, quando o acordaram, resolveu pôr-se a caminho de casa. Mas qual não foi o espanto de Vangghi quando não encontrou a casa nem a família e lhe disseram que muitos séculos tinham passado.

Lenda de Macau




O Brâmane que ficou branco em sua cama




Em certa cidade morava um brâmane chamado Svabacripana, dono de um grande pote. Recebendo generosas esmolas, pôde encher aquela vasilha com farinha. Pendurou-a, então, acima de sua cama, e gostava de ficar deitado, contemplando sua fortuna e sonhando com uma porção de coisas. Uma noite, já deitado, o brâmane começou a pensar:
- Já tenho o pote cheio de farinha. Se viesse uma carestia, eu conseguiria por ele cem moedas de prata, com as quais poderia comprar um par de boas cabras. Como as cabras têm filhotes de seis em seis meses, quase sempre, em pouco tempo estaria formado um grande rebanho. Vendendo as cabras, poderia comprar muitas vacas; com as vacas, compraria búfalas; com as búfalas, compraria éguas. As éguas teriam muitos cavalos, que eu venderia, tendo um bom lucro em ouro. Com o ouro, construiria uma casa de quatro salas . Então, sem dúvida alguma, algum brâmane virá oferecer-me a filha em casamento, e eu aceitarei, se for bonita e rica, está claro. Do casamento terei um filho, ao qual darei o nome de Somazarman. Quando ele estiver em condições de saltar sobre meus joelhos, virá ter comigo, aproximando-se dos cascos dos cavalos. Então, zangado, direi à minha esposa:
- Segura esse menino.
Ela, que estará ocupada nos afazeres da casa, não me ouvirá. Então, eu me levantarei e lhe darei um pontapé!
Tão mergulhado estava o brâmane em seus pensamentos, que, desses, sem o perceber, passou à acção, de forma que, ao erguer a perna para o imaginário pontapé, partiu o pote, recebendo em plena face toda a farinha.

Quem concebe um projecto irrealizável e impossível, pode ficar em branco em sua cama, como aconteceu ao pai imaginoso do inexistente Somazarman.

O Pestim



Dantes os ciganos viviam todos no Egipto. É lá a nossa terra, é de lá que viemos há séculos de anos. Todos os ciganos são filhos dum homem do Egipto e de uma indiana. Desse casamento nasceu a raça cigana.
Um dia, lá no Egipto, andava um molhe de ciganos nas caravanas, de terra em terra. Os tempos eram muito mais antigos, mas a vida dos ciganos era a mesma, andar de um lado pró outro a penar. Nesse dia que eu estava a falar apareceu no acampamento um senhor, uma senhora, um bebezinho e um burro.
Pediram se podiam ir na caravana, os ciganos reuniram-se e depois foram no acordo.
Andaram, andaram de terra em terra.
Às vezes, os ciganitos, a brincar, guerreavam com o menino e partiam-lhe a cabeça. O menino começava a chorar, aparecia a senhora e dizia:
- Deixa, não faz mal que já passou.
Passava-lhe a mão na cabeça e sarava logo. Mas os ciganos nem reparavam nisso, não viam que a ferida estava a escorrer sangue e que parava logo. Acho que nas antiguidades não se notava isso, pelo menos é o que se diz.
Outras vezes, era o senhor que ia deitar palha ao burrinho e, quando virava costas, os ciganos tiravam a palha e iam pô-la aos burros deles. Mas, no outro lugar, tornava a aparecer palha, e cada vez mais. Os ciganos ficavam muito admirados.
Foi quando souberam que aquelas pessoas eram S. José, Nossa Senhora o Menino Jesus e o burrinho que sempre os acompanhou nas andanças.
Era a altura em que eles andavam fugidos do rei pra não morrerem e acharam que o sítio mais seguro era andarem no meio dos ciganos. Ninguém ia lá procurá-los. E é verdade, quando um cigano quer esconder alguém, não há polícia que descubra.
Foi assim que eles se safaram, graças aos ciganos. A nossa senhora gostava muito deles. Até há ciganos que dizem que a Nossa Senhora é cigana, mas isso já não sei. Ela ensinou-lhes muita coisa, e o pestim, bolo que só nos os ciganos fazemos e só pelo Natal, foi receita dada pela Virgem.



A sereia da Ponta Ruiva



Lá pelo século dezasseis, um dia, um pescador de uma povoação do norte da Ilha das Flores andava na costa a apanhar peixe, como era seu costume. Começou a ouvir uma voz muito bonita de mulher a cantar por perto, mas numa língua que não conhecia. Ficou a cismar que por ali havia uma sereia. Logo espalhou pelo povoado a novidade e, pela maneira que falava da sereia, todos ficaram a pensar que ela encantava os homens.
O pescador não pensava noutra coisa e, logo que pôde, poucos dias mais tarde, voltou à pesca, sonhando com a ideia de que havia de ver a sereia.
Tinha acabado de lançar o anzol ao mar, quando começou a ouvir o canto que tanto o perturbava. Recolheu logo a linha e pôs-se a escutar com muito cuidado e a seguir o som. Por fim, encontrou a dona de tão melodiosa voz. Não era uma sereia, como ele pensava, mas uma linda rapariga de olhos azuis, pele clara e sardenta e cabelos ruivos. Muito assustada, ao começo, nada disse, mas por fim o pescador ficou a saber a sua história. Era irlandesa e tinha-se escapado de um navio pirata, atirando-se ao mar quando tinha visto terra próximo.
O pescador ficou ainda mais encantado e, depois de conquistar a confiança da rapariga, voltou para casa, trazendo consigo a mulher mais bela que alguma vez a gente do lugar tinha visto.
Algum tempo mais tarde, o pescador casou com a “sereia” e deles nasceram muitos filhos, todos de olhos azuis e ruivos como a jovem irlandesa.
Assim, aquele lugar da Ilha das Flores se passou a chamar, por causa da cor dos cabelos de muitos dos seus habitantes, Ponta Ruiva, e ainda hoje ali há muitas pessoas de pele clara, sardentas e de cabelos ruivos, como a jovem irlandesa que um dia ali apareceu.


Lenda da ilha das Flores (Açores)

O bis-bis



O bis-bis é um dos pássaros mais pequeninos que existem na Madeira.
Uma vez, depois de uma chuvada, uma dessas avezinhas, não tendo que comer, pensou descer às hortaliças, onde se fartaria à vontade…
Por onde ia passando, nada lhe agradava, até que deu com um grande faval.
- Ó minhas queridas e ricas favas! Parece que estais mesmo à minha espera – dizia a avezinha toda alegre.
E ainda não acabava de as gabar, já estava a comer, tal era a vontade e sofreguidão que trazia:
- Tudo, tudo para mim; e ainda é pouco – pensava lá consigo.
Mas passados alguns momentos, já não podia comer mais, apesar das voltas que dava ao papo, que estava muito pesado…
Talvez por se encontrar bem disposta, a ave descansou entre o faval, aproveitando um raio de sol, que lhe chegava e aquecia agradavelmente…
Por se sentir bem, dizia consigo:
- Agora não tenho medo de nada, desafio qualquer bicharoco…
Mas nisto, caiu uma folha de faveira. O pequeno animal assustado, exclamou, julgando ser alguém:
- Senhor, não mate o bis-bis, porque está farto de favas e não sabe o que diz…

Conto tradicional da ilha da Madeira


Dinorah

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Dinorah, filha de Agar, era uma das mais belas mouras de todo o Algarve muçulmano. Vivia num belíssimo palácio de mil colunas finas de mármore rosa e ventanas de filigrana de madeira, rodeada de coxins de seda coloridas e macias como o roçar de asas de pomba. Jardins de maravilha, onde bailavam exóticas danças flores de todo o mundo, haviam sido plantados para encantar os seus olhos negros. Riachos transparentes saltitavam de calhau em calhau num rumorejar de música constante.
E, contudo, Dinorah chorava. Era como se uma tristeza infinda, inexplicável, se tivesse instalado no seu coração. E Dinorah chorava por estar encerrada por detrás da filigrana das ventanas, por ter de sentir beleza no esquadriado dos seus lindíssimos jardins. Dinorah chorava afinal aquela sua solidão irremissível, chorava-se coração para amar sem ter a quem amar. Por isso os seus olhos negros, negros como um céu onde a lua nunca passeou o luar, eram tristes.
Numa tarde de Primavera, começavam as amendoeiras a florir, estava Dinorah no seu balcão, passeando os olhos tristes e negros pelo desabrochar da natureza, quando passou um trovador que ao ver tanta melancolia lhe perguntou cantando como a poderia alegrar. E Dinorah respondeu:
- Ah, trovador, trovador!...Se me pudesses ajudar, dá-me um véu para noivar…
Ouvindo estas palavras partiu o cavaleiro a galope, ficou Dinorah a chorar.
Mas mouro com cristão não deve falar e a Alá não agradou este breve instante. Por isso decidiu, logo ali, aqueles dois castigar.
Chegou a noite de mansinho e cobriu com o seu manto da cor dos olhos de Dinorah todas as coisas da terra. A essa mesma hora, uma voz dulcíssima, cheia de uma ternura nunca ouvida, soou ao som de um alaúde, cantando trovas velhinhas. E nessa noite Dinorah dormiu tranquila e em paz porque sabia já não estar só.
Ao acordar, pela manhã, os olhos negros da moura brilhavam finalmente como se nessa noite a lua tivesse, pela primeira vez, deixado o luar encantar a sua visão. E quando chegou à janela viu acenar-lhe o braço incansável do trovador da noite e tudo, tudo à volta deles eram pétalas brancas de noivar.
Estendeu, também ela, o braço para num aceno agradecer mas, neste gesto, viu-se transformar em fonte e o seu trovador mudar-se em lago. Desde então andam juntos a correr para o mar e todos os anos, pela Primavera, Alá manda-lhes as flores de amendoeira para que possam noivar.

28/11/2009

A haste da cruz



Conta-nos uma lenda de antanho que, a um homem que deveria fazer grande jornada, deram a carregar pesada cruz, dizendo-lhe que ela o levaria à salvação.

Tendo feito pequena parte do trajeto, vencido e desanimado pelo cansaço, deliberou ele cortar um pedaço da longa haste de sua carga.

Mais aliviado, pôs-se de novo a caminho, e jornadeou até o ponto em que a estrada subia por uma encosta longa e pedregosa. Ali sentiu mais o peso da cruz. Doíam-lhe os ombros, tinha as pernas trôpegas, arfava e suava. Na irreflexão da impaciência, pôs o seu fardo no chão, e outra vez o mutilou.

Partiu. Alcançou o sopé do outeiro, e se viu às margens de um rio sem ponte. Só então observou que outros viajantes ali chegados levavam também pesadas cruzes de longas hastes.

Mas estes, mais resistentes e tolerantes, conservaram suas cruzes intactas. Estenderam as cruzes de margem a margem, e fazendo-as de pontilhões, atingiram o lado oposto, e lá se foram.

O que encurtara a haste de sua cruz viu, desde logo, que ela não lhe poderia prestar o mesmo auxílio. Tentando meter-se pelo rio a dentro, desapareceu, levado pelos redemoinhos da correnteza.

É límpida a lição da fábula. Todos os que vivemos a cortar, com golpes arbitrários, em nossos deveres e obrigações para com Deus, podemos levar, por algum tempo, vida mundanamente fácil, mas sempre enganosa. O dia chegará em que seremos vítimas das mutilações feitas na haste da nossa cruz.


26/11/2009

Estabelecimento de uma tradição

Havia uma vez uma cidade formada por duas ruas paralelas. Um dervixe passou de uma rua para a outra, e assim que alcançou-a, as pessoas notaram que havia lágrimas nos olhos dele.
- Morreu alguém na outra rua! - gritou um homem e logo as crianças da vizinhança fizeram coro a essa exclamação.
Mas o que acontecera fora algo muito diferente. O dervixe estivera descascando cebolas. Em poucos segundos o eco do grito já alcançara a primeira das duas ruas. E os adultos de ambas se preocuparam e ficaram tão assustados que não se animaram a investigar devidamente as causas daquela agitação. Um homem sensato e sábio tentou chamar à razão as pessoas das duas ruas, indagando-lhes por que não se comunicavam para apurar o acontecido. Muito confusos para apreender o sentido daquelas palavras, alguns disseram:
- Pelo que entendemos há uma epidemia muito séria na outra rua.
Esse boato também se propagou como um incêndio incontrolável, levando a população daquela rua a pensar que a outra estava destinada a morrer. Quando foi possível restabelecer certa ordem, ambas as comunidades só pensaram numa saída: emigrarem para salvar-se. E foi assim que, de repente, as duas ruas ficaram vazias de seus habitantes. Ainda hoje, vários séculos passados, a cidade permanece deserta, e não muito distante dali há duas aldeias. Cada uma possui sua própria tradição, sendo que ambas estabeleceram a partir de um povoado construído por pessoas fugidas de uma cidade condenada por um mal desconhecido, em tempos remotos.

23/11/2009

Autobiografia de um coco

Nasci na copa de uma árvore robusta, que nascera num solo arenoso, numa longa faixa da costa. Lá do alto, como de uma atalaia, desfrutava de uma vista fantástica de tudo aquilo que me rodeava.
Era muito feliz e sentia-me orgulhoso de ser coco. Pensava que meu pai era maravilhoso, até que, ouvi alguns transeuntes dizerem mal dele e de toda a família. Se bem me recordo, um deles disse:
- Que calor este. Se ao menos este maldito coqueiro nos desse alguma sombra. Não posso, com os coqueiros. Tão rugosos, tão feios e disformes! Sem folhas nem flores e sem qualquer cheiro!'
Isso fez com que me sentisse tão desgraçado que algo mudou bem dentro de mim. Como é que não tudo isto antes? Realmente eu era feio, quase disforme. Sentia-me envergonhado. Eu decidi que nunca mais deixaria fosse quem fosse ver a minha fealdade interior...
Comecei a construir ao redor de mim uma casca muito densa, dura e peluda, para proteger o meu interior dos olhares indiscretos. Além disso, nem dentro de mim havia algo de bom. Se alguém me tivesse visto por dentro, desprezar-me-ia e recusar-me-ia ainda mais. Por isso teci ao redor de mim uma capa de matéria áspera, peluda de cor parda, desagradável ao tato, para que ninguém se atrevesse a tocar-me. Mesmo não gostava que me tocassem nem acariciassem.
Ao cabo de algumas semanas, em que estive deprimido, meditando sobre minha desgraça e quase sem falar com meus irmãos e irmãs, fui, de repente, surpreendido por um impetuoso temporal. Todos éramos sacudidos violentamente. Horrorizado, agarrei-me ao meu pai, pois temia ser arrancado da árvore.
Tudo inútil, porém. Perdi o controle e senti que era atirado com veemência lá para baixo, caindo no escuro e no vazio. Fiquei aturdido ao bater no chão, magoado e dolorido com a pancada. Só e cheio de medo, pensei que a única coisa que me esperava era aguardar a morte. Sem dúvida que soara a minha hora... pensei quando um grupo daqueles odiosos transeuntes se aproximou de mim.
Mas que agradável surpresa foi para mim ouvir um deles dizer:
- Olha que coco tão bonito! Realmente tivemos sorte!'
Não queria crer no que ouvira. Senti que pegavam em mim e me agitavam junto ao ouvido de um jovem. O nariz dele começou a cheirar-me e os seus lábios murmuravam, dirigindo-se diretamente a mim:
- Que coco tão fresco, doce e saboroso tu deves ser! Alegro-me deveras ter te encontrado.'
O que?! Eu, fresco e doce?! Tinha de haver algum erro. Certamente que eu não passava de uma coisa estúpida, disforme, feia e insípida, que se contentava que a deixassem em paz.
O rapaz começou a tirar, com cuidado, os pelos ásperos e pardos, que eu fizera crescer à volta de mim para me proteger. Fê-lo com grande delicadeza como se não quisesse magoar-me. Pela primeira vez em muitos meses voltei-me a sentir feliz. E nem me dei conta de que o rapaz pegava numa grande pedra e começava a bater-me com muita força. Ia-me golpeando cada vez com mais força e energia. Gritando de dor, quis perguntar-lhe que procurava e pedir que parasse. Ela devia saber que dentro de mim apenas há fealdade. Que esperava encontrar debaixo da minha casca insensível e dura?
Uns segundos mais tarde, ouviu-se um forte estalido. Senti que me partiam em dois. Das minhas feridas começou a ressumar um suco. E, com surpresa minha, o rapaz e os amigos iam-no bebendo. Com os seus gestos de satisfação queria dizer que lhe estava a saber bem. Todos falavam da frescura e da doçura do meu suco.
A minha maior surpresa foi quando, depois de separarem as duas partes de minha casca, arrancaram algo do meu interior. Algo de imaculado. O meu interior era belo. E era evidente que o comiam com gosto.
- Afinal, as pessoas gostam de mim!', exclamei comovido.
- Não sou feio nem inútil. Rogo-lhes, por favor: comam-me! Comam-me todos! Que satisfação dar tanto prazer a pessoas que fizeram com que, finalmente, acreditasse em mim mesmo!


Lenda de Geraldo Geraldes «o Sem-Pavor»



Tudo começou no ano de 1166, no tempo em que Évora era ainda a Yeborath árabe, para grande desgosto de D. Afonso Henriques . Este ambicionava a sua posse, já que a cidade era um importante ponto estratégico na época da reconquista de Portugal aos Mouros. Geraldo Geraldes, um homem de origem nobre que vivia à margem da lei, era chefe de um bando de bandidos que habitavam num pequeno castelo nos arredores de Yeborath. Conhecido também pelo Sem Pavor, Geraldo Geraldes decidiu conquistar Évora para resgatar a sua honra e o perdão para os seus homens. Disfarçado de trovador rondou a cidade e traçou a sua estratégia de ataque à torre principal do castelo que era vigiada por um velho mouro e pela sua filha. Numa noite, o Sem Pavor subiu sozinho à torre e matou os dois mouros, apoderando-se em silêncio da chave das portas da cidade. Mobilizou os seus homens e atacou a cidade adormecida numa noite sem lua que, surpreendida, sucumbiu ao poder cristão. No dia seguinte, D. Afonso Henriques recebeu surpreendido a grande novidade e tão feliz ficou que devolveu a Geraldo Geraldes as chaves da cidade, bem como a espada que ganhara, nomeando-o alcaide perpétuo de Évora. Ainda hoje, a cidade ostenta no brasão do claustro da Sé, a figura heróica de Geraldo Geraldes e as duas cabeças dos mouros decepadas, para além de lhe dedicar a praça mais emblemática de Évora.